sábado, 29 de agosto de 2009

Poeta sou eu

Longe corre no horizonte
A luz que ilumina os astros.
Observo o céu,
Vislumbro o poeta que dorme,
Destapando o véu
Sobre essa manhã disforme.
Tantas verdades dizem,
Quase sempre encobertas,
Esses génios que escrevem,
Sobre tudo e sobre nada.
Essa raça, os poetas,
Loucos sem terra,
Que apenas voam sem rumo,
Nas asas de uma esfera
Em forma de caneta.
O vento sopra em minha face,
Acordo,
Era sonho.
Poeta sou eu,
Hoje que por fim,
Estou sentado nos sonhos de minha vida.


Vítor Fernandes

domingo, 23 de agosto de 2009

És sempre tu em meus sonhos

És tu.
Sempre tu nos meus sonhos,
De inquieta iniquidade,
Já tenho saudade
De tocar teus lábios,
Sentir tua pele,
Rebolar olhando a lua,
De papel.

És sempre tu em meus sonhos.

Navegas em minh'alma,
Em constante altercação,
Pobre de meu coração,
Que de poeta lhe falta a calma,
Sofrida na pena irrequieta,
Uns dias intensa, outros quieta.

És sempre tu em meus sonhos.

És a eterna saudade,
Que trago no peito amarrada,
Às vezes não vislumbro a verdade,
Do sentimento a que estás agarrada.
Espero no meu canto,
Não acredito em desencanto.

Serás sempre tu em meus sonhos.



Vítor Fernandes

sábado, 22 de agosto de 2009

Gostava de estar lá

Sussurro em teu ouvido,
Palavras que nem sei se ouves,
Beijo tua face suavemente,
Com toda a força de minh'alma,
Protejo-te sem saber como,
Saio já e o sol ainda vem longe.

Passo tempo demais sem ti.

Sei que não compreendes,
Nem o mundo, nem esta minha vida,
Confusa para ti,
Sem minutos, sem tempo para fazer crescer,
Algo mais do que o que já existe,
Não me desculpo, também preciso de ti.

O tempo não pára para ti...
E por mim apenas passa.

Também já fui criança...
E no tempo infindável que por mim passava,
Sentia a falta desse tempo que não existe,
Do querer tudo sem poder ter nada,
Olhar e perceber que falta alguém,
Alguém que me quer bem sem perceber como.

O pouco que durmo absorve o meu pensamento
Nessas faltas de tempo,
Que não poderei nunca resgatar.

Vítor Fernandes

domingo, 16 de agosto de 2009

Bucólico

Na berma da estrada,
Vejo passar um búfalo,
Com indiferença bufar,
Dono de sua coutada.
Este papalvo espreita,
Num passeio rocambolesco,
A forma de um bueiro,
Algures entre um pinheiro.
Bucolista sou,
Ah! Aquela camoesa,
Com todos os seus berloques,
Moldados como plasticina,
É algo que me fascina.
Paro. Abro o farnel,
Sinto-me sonolento,
Ao olhar o farol.
Ouve um desfalque naquela dorna,
Disso tenho certeza,
A mediania aqui impera.
Vou montar meu rocinante,
Tocar minha viola,
Dorminhoco não serei,
Nem uma farpa de qualquer auto,
Me atingirá o dorsal.

Vítor Fernandes

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Perdido

Sufoca-me esta noite,
De calor intenso, fechado
Num arraial de dúvidas,
Imenso,
Num nada que é tudo,
O que possuo neste momento.
Respiro, mas não consigo,
Afastar esta dor
Ou apenas sufoco,
Do calor,
Que me gela a alma,
Pálida, submersa,
Sob uma luz ofuscada,
Por mim,
Num rumo desatento,
Sem estrada, sem curvas,
Direito a um destino,
Que sei não ser meu.


Vítor Fernandes

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Gente do mar

Gente envolta no mar,
Tenebroso e revolto,
Carrega perigo no olhar,
Num barco feito de pau solto,
Por entre vagas desmedidas.
Ò garra enorme que te envolve,
Alma de povo pobre e honrado,
Que enfrenta ondas e marés,
Dias carregados de revés,
Numa vida que não desenvolve.
Em vosso sangue mora a pesca,
Feita de esforço, profissão.
Pescadores de Matosinhos,
Terra de grande procissão,
Nunca vós estareis sozinhos.
Uns voltam,
Outros por lá ficam,
Choram-se os mortos de uma vida,
Todos ficam no coração,
Com fé e muita união.
Orgulho, amor e coragem,
Essa é a história que nos contam,
Todos os que embarcam na voragem,
daquelas ondas que se soltam,
E se perdem na maré.


Vítor Fernandes

domingo, 9 de agosto de 2009

Memórias

Negra saudade de teus recantos,
Moldados, sulcados de finas camadas
De Areia,
Voando com o vento,
Subindo uma encosta,
Vadia,
Sempre acompanhada de gente,
Perdida,
No aroma de teus cheiros,
Delirantes e passageiros.
Fui feliz nesse teu rio,
De lágrimas, sorrisos,
Dias entregues a nada,
Como quem já conquistou o mundo.
Oh! Ímpeto delirante,
Fui além do que queria,
Cheguei onde não devia,
Sempre sentado no colo das tuas memórias.
O Nada que ficou,
No tempo inquieto,
É tudo o que preciso para saber,
Que vou ...
Para onde não sei,
Mas o que guardei de ti,
Faz parte do que já passou.

Vítor Fernandes

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Fascínio da noite

A noite já vai alta.
Neste vazio assombroso,
Divago no nada, que já foi,
Digo adeus às estrelas,
Como quem pára o universo,
Travesso,
Com mil mistérios a seu cargo.

Seria melhor tentar dormir,
Ou apenas fingir algo semelhante.

Escrever acontece-me...
Meu cérebro não pára de pensar,
Estou louco para o conseguir controlar.
Seria tão mais fácil!
Olho lá fora, a lua deslumbrante,
Dançando com o céu, altivo,
Em seus gestos desconcertantes.
A noite domina-me,
Não tenho mais explicações,
Para as constantes divagações,
Entre mim e o céu, o céu e as estrelas,
Cometas até...
Nasci de noite.
A chave pode ser essa;
De dia consigo pensar em nada,
Ficar alegre com a tristeza nos braços,
Dizer o que sinto sem pensar que minto,
Mas a noite...
Ah! A noite domina-me.


Vítor Fernandes

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Durmo ainda

Longas noites são estas que passo,
Nos teus braços,
Ou nos meus,
Sabendo apenas que são braços,
Que aquecem
Ou arrefecem,
Consoante o dia em que se encontram.
Respiro lentamente teu perfume,
Rasgo de suave brisa em meu olfacto,
Sinto-te perto.
Nos braços que me abraçam desperto,
E adormeço dias sem conta.
Esta luz que sobra no final do teu olhar,
Raio de sol que parece afagar,
Meu espírito,
Quase um nada,
Como se minh' alma fosse um poço,
Em que um simples braço mergulha,
E encontra,
Um leve e lânguido acordar,
Quando já nada há para recordar.
Durmo...


Vítor Fernandes

sábado, 1 de agosto de 2009

A tarde

Saio de casa liberto,
De todos os sonhos desperto.

Tarde que tarda em ser noite,
Encerra em seu ventre o sol da manhã,
Será que depois de hoje
Haverá algo mais belo no amanhã?
A tarde, penso, não será.
Oblíqua saudade de uma tarde decente,
Em que faça algo mais do que ver gente,
Que não sabe o que quer nem quer o que sabe.
Tarda em aparecer algo diferente.

Semente plantada numa tarde qualquer.

É assim dormente esta tarde ausente,
Fruto de delírio recente.
Não quero passar esta tarde!
Tempo, porque me torturas?

Enfim, há-de chegar a noite,
E em infinita e gloriosa entrada,
Dar nesta tarde uma facada,
Coisa que merece deveras.

Entro em casa incerto,
Afinal dos sonhos não desperto.


Vítor Fernandes